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Notícia da Cidade do Paulista!

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XAROPES, PARA FICAR POR AQUI MESMO.


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XAROPES, PARA FICAR POR AQUI MESMO.

Impera no imaginário popular que o combate à corrupção deve se dar sob fundamentos  alienígenas, mágicos ou, como bem diriam filósofos e religiosos, por meios transcendentes. É o que se depura das múltiplas exigências populares sobre os políticos. As pessoas querem o fim da corrupção e querem políticos sacro-santos fazendo políticas sacralizadas e redentoras de todos os males da sociedade. Isso se observa, quando se depuram as exigências populares, em muitos aspectos das insatisfações.

Querem que os políticos resolvam todos os problemas do dia para a noite ou que façam o que for preciso para lhes garantir os direitos,  mas sem que quem reclama perca algum mimo ou regalia, ou mesmo tenha que fazer também alguma coisa para colaborar com a solução dos tais problemas.

Querem que os politicos se autofinanciem, mas que sejam pobres como o povo, sentindo na pele o sofrimento daqueles a quem deve representar, ignorando tais pessoas que campanhas políticas são, em essência, a publicização de ideias e propostas (das quais na maioria das vezes não querem saber) e que para alcançar o número suficiente de eleitores tais campanhas têm um custo impagável para as condições da maioria dos candidatos que poderiam cumprir as expectativas da população. 

Querem que as coisas sejam feitas e divulgadas aos quatro cantos para que as informações cheguem por acaso até elas, seja pela  publicidade numa revista ou jornal de sua preferência, seja no intervalo da sua novela favorita, seja em postagens pagas e distribuídas em sua rede social, publicidade que tantas vezes ignorará, não lendo nada por já saber 'que é tudo mentira mesmo', não se dando ao trabalho de pesquisar por conta própria as ações desenvolvidas pelos governantes, fiscalizando, reivindicando nos fóruns de decisão adequados, apresentando propostas, etc. E mesmo que qualquer ação concreta seja feita ele terá o maior prazer e despreocupadamente dirá muitas vezes que absolutamente nada foi feito, afinal, quem se importa que alguém xingue um político? Não são todos iguais mesmo? 

Querem ainda que todo político tenha a plena capacidade de antecipar premonitoriamente a desonestidade do outro a que possa se aliar (ou mesmo sentar ao lado), sabendo tudo que ele irá fazer ou tenha feito nos recantos escuros em que praticou as facetas de sua corrupção, utilizando-se dos meios terrenos, possíveis, metafísicos e marcianos de conhecimento para saberem de todos os atos que os outros praticam, buscando os 'perfeitos' para se juntar.

Querem também ganhar direitos, muitos direitos, todos os direitos, sem ter que precisar se levantar da frente da televisão e do celular, onde são platéia, e se dispor a elaborar as ações eficazes para eliminação das mazelas que assolam a sociedade, não querendo igualmente sofrer os efeitos do sol sob a pele que protesta e os incômodos do pensamento contraditório com o qual tem que lidar aqueles que se movimentam e se dispõem a por a 'mão na massa'.

Querem a vacina mais moderna e os médicos mais capacitados em plantão permanente; querem inglês gratuito, canto, balé, cinema e curso superior; querem uma viatura policial em cada esquina e policiais gentis e bem educados; querem pleno emprego, pegar tarde no trabalho e chegar cedo para ir à academia antes de sair para jantar; querem ônibus limpos, gasolina barata e Uber Select; querem meia entrada para todos e os melhores pratos nos restaurantes; querem cerveja, uísque e Coca-cola. Porém, não querem pedir a nota fiscal no posto gasolina; não querem ter o trabalho de denunciar na ouvidoria a falta do servidor público ao seu serviço, e depois comunicar à secretaria responsável, e ainda levar  ao conhecimento do Ministério Público se preciso, para que tome providências. Não querem fiscalizar o destino dos seus impostos. Também não querem aguardar sua vez na fila, ultrapassar outros carros em local correto na estrada e deixar de dirigir após consumir álcool; nem querem colaborar com as investigações da Polícia sobre os crimes, falando o que viu, ouviu, soube a respeito ou desconfia simplesmente porque 'não querem se envolver'.

No dia de hoje em que a imprensa divulga a constatação por pesquisa da existência do voto BolsoLula* (eleitores de Lula que declaram como segunda opção votar em Bolsonaro), recordo como a vontade popular por vezes é absurdamente contraditória. 

No mês de julho deste ano estive de férias e, resolvendo perambular pelo Recife, decidi utilizar transportes coletivos. Já no primeiro ônibus que peguei na zona sul da cidade em direção ao centro presenciei algo que me deixou refletindo pelos meses seguintes. Um homem entregou uma cédula em valor maior que o da passagem e recebeu de volta troco maior do que deveria e ouviu do cobrador: "fica por aqui mesmo". Sem titubear ou expressar o menor constrangimento, o cidadão encostou-se numa das cadeiras da parte da frente do coletivo. Não rodou a catraca. A vantagem imediata era clara. Ganhou um e o outro. Só que, sem que percebessem, a cidade toda perdia.

A política está doente porque a sociedade brasileira está doente. A política exala odor fétido porque as milhões de ações individuais, cotidianas e permanentes exalam o mesmo, dispromovendo a ética, a honestidade e a honra em nome da coroação das pequenas e grandes mentiras, das 'espertices' e 'malandragens'. A política está ruim e não exatamente queremos tomar os melhores remédios. Queremos, em muitos casos, xaropes. Xaropes, talvez. E vamos ficando por aqui mesmo, do jeito que sempre fomos.

Douglas Lemos
REDE/PE

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